Centenário da Consagração ao Sagrado Coração de Jesus da Venerável Sílvia Cardoso

Por ocasião do primeiro aniversário da trasladação dos restos mortais da Venerável Sílvia Cardoso Ferreira da Silva para a Igreja Paroquial de Paços de Ferreira, e fazendo coincidir esta data com o centenário da sua consagração ao Sagrado Coração de Jesus - 1 de abril de 1917 - o Senhor D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, presidirá à eucaristia, nesta igreja, no dia 3 de abril, às 21.00h. Será um momento de ação de graças e de súplica ao Senhor, que nos conceda a graça da sua beatificação e canonização.

Foi há 100 anos que a Venerável Sílvia Cardoso fez a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus, num retiro, em março de 1917, em Tuy, Espanha, quando fazia os Exercícios Espirituais, acompanhada de outras duas senhoras, com o Pe. António Vaz Serra, Jesuíta, ali exilado, depois da implantação da República (1910).

Sílvia Cardoso já conhecia o Pe. Vaz Serra, de uma visita a casa de uma prima em Lisboa, em 1910. Como era habitual quis confessar-se a ele, como a prima. E já aí, ele lhe terá dito “que Deus não a queria por esse caminho”, referindo-se ao seu projeto de matrimónio e acrescentando: “Deus quere-a para apóstola”. Esta (pro)vocação do confessor desagradou-lhe. Ela própria teve este desabafo: “não gosto deste padre, porque me contraria nos meus planos”. Nesta deslocação a Tuy, o sacerdote repete-lhe a mesma diretiva, depois de ela ter contado o que lhe acontecera: a morte do seu noivo.

Neste encontro espiritual, o sacerdote jesuíta retoma o grande desafio feito em 1910 e propôs-lhe a fundação de uma obra – os retiros fechados para leigos - muito necessária em Portugal, em resposta à ignorância e preconceitos contra a Igreja, nomeadamente contra as Congregações Religiosas. A sua disponibilidade foi total. Quando se tratava da salvação das almas, ela nunca encontrava dificuldades.

Nestes exercícios, na capela do Noviciado das Irmãs Doroteias, no dia 1 de Abril de 1917, Sílvia Cardoso fez a consagração da sua vida numa entrega total ao Sagrado Coração de Jesus, mediante o voto de castidade perpétua, emitido perante o seu Diretor Espiritual, que lhe ofereceu uma gravura do Sagrado Coração de Jesus, que conservou, pendurada no quarto, durante toda a vida e lá continuou depois da sua morte.

Esta consagração ao Coração de Cristo foi um marco decisivo na sua vida e no seu itinerário espiritual. É de referir que tudo isto nunca implicou a mudança de estado ou condição de leiga, dentro da Igreja.

D. Sílvia refere-se a esta decisão, nos seus escritos espirituais, como tendo sido o dia “em que a sua felicidade teve início”, caracterizada por “uma consolação sem igual” e por uma paz, que nunca antes tinha experimentado, sentindo-se fora de si (escritos pessoais de 5.8.28). Testemunhas várias referem que ela, aí, “decidiu dar-se totalmente ao Senhor e ao apostolado”, dando nova orientação à sua vida: “A partir desta data, a sua atividade sócio-caritativa desenvolveu-se muitíssimo”.

Logo após a consagração, não lhe foi possível realizar a referida obra espiritual. A sua concretização veio a acontecer, mais tarde, em 21 de Janeiro de 1923, com a abertura da Casa de Sequeiros, em Lodares, Lousada, na Diocese do Porto, sendo Diretor dos Exercícios Espirituais o próprio Pe. António Vaz Serra, que se manteve nessa função, até dezembro de 1926.

D. Sílvia, mesmo com o aparecimento de algumas dificuldades, conseguiu manter em funcionamento, nesta diocese do Porto, durante o resto da sua vida, a Obra de Retiros, congregando colaboradores, suportando despesas, rezando e trabalhando incansavelmente, de noite e de dia.

Em 1932, a Obra espalhou-se pelo norte e sul de Portugal, tornando-se a mais querida e “a que mais consolação lhe dava, porque ali se tratava da salvação das almas”.

Podemos dizer que a Venerável Sílvia Cardoso, desde a sua infância, numa família abastada e com educação cristã exemplar, já manifestava inclinação para a piedade cristã, facilitada pela capela da Casa da Torre, onde vivia, lugar onde tantas vezes saboreava o encontro profundo com Deus e o cuidado com os pobres que generosamente acolhia. Qualidades que manteve durante toda a sua vida.

A experiência de um enamoramento desaconselhado, a morte inesperada do noivo, Acácio Umbelino, no Brasil, em novembro de 1913, quando se preparava para o casamento já marcado para maio de 1914, e a conversão à fé cristã deste, antes da morte, foram, para ela, indicadores da vontade de Deus, chamando-a para uma vida de consagração total. Tudo isto fez com que ela soubesse interpretar os desígnios de Deus a seu respeito, e faze-los seus, com total generosidade, tornando-se este ato de consagração a coroa de uma experiência de vida.

Este percurso de crescimento, em grandes qualidades ou dons naturais e sobrenaturais, aponta uma meta: a consagração total, sem deixar o mundo, que a conduziu a uma extraordinária atividade caritativa e evangelizadora até ao fim da vida.

Foi verdadeiramente heroica na prática das virtudes cristãs, como já reconheceu o Papa Francisco, em 27 de março de 2013. A sua vida, em que o “Senhor fez grandes maravilhas” - de que tantos beneficiaram e testemunharam - culminou no dom da Mística da Obra do Amor, como carisma definitivo, com que o Senhor a dotou, para sua santificação e benefício da Igreja.

Pe Samuel Guedes

Vice-postulador